Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

A história de um qualquer alguém I

A noite já ia longa quando ela rodou a chave no trinco e entrou dentro da sua própria casa. Nesse exacto momento pode provar uma estranha sensação, pela primeira vez em muitos anos não se sentia em casa.

Agora compreendia que lar não eram as paredes ao alto criando um abrigo decorado e organizado do nosso jeito pessoal, lar era sim todo o sitio que nos dá paz, aconchego e protecção.

Então ela descubriu com essa estranha sensação que o seu lar eram aqueles braços abertos à sua espera, mas agora mais distantes que o sol, lar era aquele regaço no encalce do calor do seu corpo, aquele olhar selvagem que tinha tanto de agressivo como de uma melancólica meiguice era também o seu lar.

Pois então a sua casa era o corpo daquele ser quase divino que há muito tinha entrado na sua vida e não as paredes e os espaços  que a viram crescer, pois qualquer espaço que não envolve-se  a proximidade com ele jamais lhe conseguiria dar um abrigo tão completo como ele lhe dava.  

Ela correu para a rua e mesmo estando a  chover lá ficou à espera de sentir o real aconchego quando o seu "lar" regressasse... mas ele não regressou. Ela tornou  para dentro das velhas paredes que delineavam compartimentos cheios de solidão e continuou à espera dele mas ele nunca nunca mais voltou. As memórias que tinha do dono do seu abrigo eram como ilusões, como um sonho que acabou e ninguém lembra que existiu a não ser ela que enraizou os sentimentos no chão na expectativa do reencontro.

Vive num mundo de cartão perguntando por ele, procurando por ele, lutando por ele, sem nunca ser compreendida, mas antes vista como uma triste louca, como se ela criasse amigos imaginarios e constituisse uma vida e uma paixao com um fantasma inventado por si do que também o esquecer, porque isso seriacomo se esquecer de si própria, como recusar a dádiva de saber que alguém lhe conferiu.

Mas ela ainda conseguia lembrar do cheiro do corpo dele, do calor da sua voz com tamanha intensidade que jamais em tempo algum poderia ter sido irreal.

E assim ela apreendeu a viver sendo mendiga, uma pobre sem-abrigo, mesmo com um tecto de qualidade para a proteger, no entanto se nunca mais o voltasse a ver sua alma estaria ao relento sobrevivendo à morte dos dias.

 

 

música que me está a dançar na cabeça: confiarei - coro
sinto-me: anti-social
publicado por sombra esquecida às 16:09
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